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La Campana – Vila Alemana – Viña Del Mar – Valparaíso!

05/04/2012

Segundo dia de pedal!!!

Perdemos a hora de acordar por causa do vinho da noite anterior, claro, tomamos café-da-manhã (fotos no finalzinho deste post) e partimos pra nossa segunda jornada, cuja meta seria chegar finalmente em Valparaíso e encontrar o Maurício, amigo do Mateo (italiando que o Gola e o Ian hospedaram em São Paulo, pelo couchsurfing) e dormirmos na casa dele por dois ou três dias. Descemos os três quilômetros do Parque Nacional La Campana até o Hotdog Kanguro, onde comemos mais “completos”, para conseguirmos seguir viagem.

Já era bem mais de meio-dia quando começamos, de verdade, o trajeto. Foi fácil sair de Olmué, por ser uma cidade tão pequenina e logo já estávamos em Limache, próxima cidade vizinha. De lá, entramos em uma estradinha com algumas subidas e descidas, mas sem grandes dramas. Achamos que o dia de pedal seria tranquilo, já que só tínhamos uns 60km pra pedalar no total.

Só que não contávamos com o trânsito um pouco caótico e pesado que pegamos, acho que bastante devido ao horário que começamos a pedalar, que não foi tão cedo como é bom ser. Quando estávamos na saída da estrada pra autopista aconteceu uma coisa muito chata. Eram umas 18h30, o trânsito estava um pouco intenso nessa estrada ainda mais por ser a saída pra autopista e tinha uma subida meio grande com carros indo um pouco rápido. Então, o Ian ficou um pouco pra trás pra me esperar e, vendo que eu já estava chegando, se manteve a uma distância pequena à minha frente. Estávamos no acostamento e o Ian estava a uns 30 metros na minha frente quando vejo um carro popular me passando bem rápido e entrando no acostamento, atras dele, meio nervosinho com as luzes de freio piscando frenéticas como muitos motoristas de São Paulo fazem, sabem… Então pensei: “oi?!” E, em seguida, vi o cara se aproximando muito do Ian no acostamento e, sem tempo nem forças pra gritar, so consegui ver a merda acontecendo.

Por sorte (porque é só sorte que explica), o cara desviou da bicicleta do Ian pegando apenas no alforje traseiro do lado esquerdo. O Ian conseguiu desclipar a tempo e nem caiu. Só se desequilibrou e tombou com o peso todo pro lado direito. Fiquei apavorada, óbvio, e gastei minhas últimas forças no final da subida pra chegar até ele e ver como ele estava, mais pelo susto do que por danos corporais, ainda bem.

Cheguei lá e o Ian estava muito puto, claro, mas como estávamos em uma estrada ruim, ele falou que estava tudo bem e que era melhor seguirmos logo até Valparaiso. Alcançamos o Gola e o Shadow, explicamos o que havia acontecido e resolvemos cair fora dali o mais rápido possível. Mal sabíamos que ainda ia ficar um pouco pior.

Chegando na Vila Alemana, deveríamos seguir pela avenida principal até a próxima estrada que nos levaria até Viña Del Mar e, a partir daí, só alegria: ciclovia de 8km até Valparaíso. Bom, já no começo da avenida pudemos perceber uma certa hostilidade dos motoristas, tanto de carros quanto de ônibus. Mesmo sendo quatro ciclistas mega-carregados, super visíveis com as luzinhas ligadas mesmo no entardecer das 19h40, ouvíamos buzinas desenfreadas, tomávamos finas muito irritantes e aconteceu até de um motorista reclamar com a gente. Eu ainda não sei se aquela avenida é assim mesmo ou se pegamos bem a hora do rush, mas um senhor motoqueiro depois nos disse que os ônibus ali não respeitam ninguém mesmo. Então, tirem suas próprias conclusões assim como tirei as minhas.

Enfim, em determinado ponto da avenida, com todo mundo já muito puto e estressado, o Ian avistou uma “panederia”, sentiu o cheiro de pão fresco e avisou todo mundo pra parar, pra comermos um pãozinho, beber uma “gasosa” e descansar um pouco a mente daquele trânsito todo infernal. Afinal, como me disse o Shadow depois: “nem em São Paulo eu nunca fiquei tão estressado assim”.

Paramos na frente de uma “peluqueria” (cabeleireiro), ao lado da padaria, e tinham dois motoqueiros na frente. Um deles era o dono do estabelecimento e, obviamente, começaram a nos perguntar de onde vínhamos, sobre nossos roteiros, etc. Entramos no cabeleireiro e um dos homens nos mostrou um desvio daquela avenida horrível, por uma rua por baixo, que seguia a linha do trem, para sairmos da Vila Alemana mais tranquilamente. Agradecemos, comemos um pãozinho que o Ian trouxe e seguimos viagem.

Pegamos a tal avenida que seguia o trem e foi bem tranquila. Entramos em uma outra estrada que nos levaria até Viña Del Mar e decidimos seguir o caminho todo pela calçada. Era uma autopista um pouco perigosa e tinha algumas saídas à direita, como a Castello, o que tornava a pedalada bem menos fluida e mais perigosa. Os ônibus eram bem agressivos e passavam muito rápido, então, resolvemos ir pela calçada que era bem ampla e não tinha muita gente passando. Fomos bem devagar, até chegarmos em Viña. De Viña, partimos pra Valparaíso, mas sem antes, claro, errar a entrada da tal ciclovia que liga as duas cidades, e termos que subir as bicicletas por uma escada pra entrarmos no outro acesso da ciclovia, mais lá na frente. hehehe. Mas, a este ponto, o estresse era tanto que pouco importava se tínhamos que subir as bicicletas em escadas, terra ou pedras. A gente só queria pedalar tranquilos na ciclovia. E assim foi até Valparaíso.

em Viña Del Mar, chegando em Valpo.

Viña Del Mar e Valparaíso ao fundo.

chegando em Valpo, finalmente, pela ciclovia!

Erramos uma entrada ou outra, mas finalmente conseguimos chegar na casa do Maurício, que estava viajando. Quem nos recebeu foi o Rodrigo, primo dele e os outros que moram na casa. Me lembrei muito do Saloon quando entrei: casa antiga, vários quartos, pessoas legais morando, dinâmica sempre muito rápida, porém mega-amigável, liberdade total de ir e vir e um clima muito gostoso. Todos que moram aqui são estudantes de arquitetura. São um pessoal muito interessante.

Bom, resumindo, chegamos aqui dia 05 de abril, à noite, como está escrito no início do post. Era para ficarmos até três dias no máximo e seguirmos viagem pra Los Andes pra, finalmente cruzar o Passo dos Libertadores e subir os Caracoles. Porém, nos apaixonamos tanto por Valparaíso que estamos aqui até hoje (quuinta-feira). Ontem à noite, fez uma semana que chegamos aqui e não queremos sair mais… (ainda vou fazer um post só sobre esta cidade portuária linda pra vocês entenderem melhor porque todo mundo que vem pra cá, se apaixona).

Sabemos que vamos ter que seguir viagem logo mais, porque o Gola viu hoje na internet que já tem notícia de neve em alguns trechos do caminho que pretendemos passar e algumas estradas ficam fechadas por causa do clima, as vezes. Então, decidimos que vamos recusar TODOS os convites de festas e programações culturais que fazem pra gente e vamos partir amanhã, sem falta. Vamos ver se dá certo…
Enquanto isso, vamos vivendo aqui, nessa cidade incrível, maravilhosa, onde, pra ajudar, o sol se põe bem no Pacífico das Águas Geladas. 🙂

PS.: desculpem a falta de fotos neste post, mas o dia de pedal foi TÃO estressante que ninguém conseguiu tirar a câmera da bolsa durante todo o trajeto, só no finalzinho, que são as únicas fotos que tem aqui.

Santiago – Til Til – La Campana

04/04/2012

Hoje foi o dia de começar de verdade nossa viagem. Combinamos com o Felipe, o couchsurfer, de sairmos da casa dele na segunda à noite, então, fechamos uma noite num hostel muito bom chamado Hostel Bellavista, onde os meninos estavam hospedados, no bairro homônimo que era um semelhante à Vila Madalena turística chilena. Acordamos por volta das 6h20 da terça-feira, nos preparamos, tomamos um café-da-manhã reforçado com sucrilhos, leite, café, pão hallulla (que eu não curti muito, porque é uma rodela de pão meio duro, fino, com uns furinhos em cima e bem seco… bizarro) com manteiga e geleia de framboesa.

saindo do Hostel Bellavista, em Santiago.

A meta era dormirmos acampados no Parque Nacional La Campana, depois de subir e descer a Cuesta La Dormida que consiste em um morro de 11km de subida (subindo uns 650, 700km no total) e descendo mais uns 11km até a cidadezinha lá embaixo, chamada Olmué.

Saímos de Santiago por esta rota: http://g.co/maps/hm4fh, que é um jeito bem tranquilo de sair da cidade. Conseguimos cortar bastante por dentro e, quando vi, já estávamos no Camino Lo Equevers, uma estradinha linda para TilTil. É muito bom poder sair da cidade sem ter que passar pelo estresse da Marginal Pinheiros e Castello Branco, por exemplo. Conseguimos entrar na mini-estradinha pra TilTil, que havia sido toda recapeada no final do ano passado, então estava maravilhosa pra pedalar, e fizemos uns 60km nela até a cidade.

estradinha dos sonhos.

Essa estrada entrou no meu coração. Asfalto novinho, paisagem desértica, montanhas à esquerda e casinhas e o vale à direita. Havia umas árvores muito, muito bonitas (ainda não descobri o nome delas, sou péssima pra essas coisas), mas elas estava em toda parte do caminho, pequenas, baixinhas, com aquela aparência seca de tempo seco, no meio daquela “quase-vegetação” meio-viva, meio-morta. O grande lance que me encantou os olhos é que esta árvore tinha o que pareciam umas flores ou frutinhas, mas acho que pela época do ano, elas caíram todas no chão, em volta da árvore e, como eram vermelhas, pareciam sangue.

flores que sangram.

Tudo naquele caminho de Santiago a TilTil parecia tentar sobreviver no meio do tempo assustadoramente seco, mas ao mesmo tempo tudo era tão vivo! Acho que pelo azul tão puro do céu tudo parecia ter mais cor. No caminho inteiro, vimos um total de umas cinco flores apenas, amarelinhas, pequeninas e frágeis, que se destacavam brutalmente daquele lugar sem verde.

Quando chegamos em Til Til, por volta das 13h, paramos para almoçar naquela cidadezinha que mais parecia um cenário de filme de terror: ninguém nas ruas, tudo vazio, uma linha de trem correndo do lado direito e um mini-comércio do lado esquerdo e, ao fundo, montanhas, claro (o que ajudava a tornar a paisagem  mais assustadora).

Encontramos em uma praça e perguntamos a um velhinho onde poderíamos comer em um lugar gostoso e barato e ele nos indicou o El Cote, um restaurante ali perto. Comemos um delicioso arroz com carne de porco, com uma salsa incrível (aliás, estou ficando cada dia mais viciada nas salsas do Chile) e uma saladinha de tomates frescos. Quatro litros de coca-cola depois, resolvemos procurar um lugar pra montar as redes e digerir um pouco, antes de subir a serra.

almocinho delícia no Cote, em Til Til.

Então, o Ian avistou uma casinha abandonada na linha do trem que parecia ser um antigo posto de controle. Tinha dois andares, o maquinário ainda todo ali, enferrujando e várias pixações que diziam: “Slayer, 666…” e pentagramas e cruzes invertidos… vai saber.

casinha mal-assombrada em Til Til.

bizarrices na casinha abandonada.

casinha mal-assombrada em Til Til.

Meia hora depois que montamos as redes, começou o que devo chamar de um vendaval de cenário do apocalipse. Bendito seja o Olinto  que contou no seu livro “Os Sete Passos Andinos” sobre essa puta ventania que faz logo depois do almoço por estas bandas.

Enfim, nos demos conta que subir a montanha com aquele vento, não ia ser nem um pouco fácil, então, resolvemos levantar acampamento e começar a pedalar logo pra chegar no Parque Nacional antes do anoitecer (que está acontecendo aqui por volta das 19h40, 19h50). Pensamos: “bom, quatro horinhas pra fazer os 30km restantes, contando com uma subidona no meio… ah, tudo bem”. Rá! Bobinhos…

Mas voltando a TilTil. O Gola e o Shadow foram comprar queijo e pães para tomarmos café-da-manhã no dia seguinte e o Ian e eu ficamos arrumando meu pneu e trocando a fita de aro da bicicleta dele.

Saímos de TilTil por volta das 15h30 e pedalamos tentando manter um ritmo bom até o início da subida, pelo menos. Aliás, eu só tentei, né, porque carregando uma bicicleta com mais ou menos o equivalente ao meu próprio peso em bagagens, não consigo manter o ritmo forte por muito tempo e logo tenho que diminuir a velocidade.

Entramos, então, no meio das montanhas pela estrada e a já sentimos a altimetria mudando. Começamos a subir num ritmo bom (pra mim, pelo menos, porque se o Gola não estivesse me acompanhando, ele subiria muito mais rápido com certeza hehehe) e eu super achei que ia conseguiríamos chegar “logo” ao Parque. Rá, rá, rá.

De repente, as subidas ficaram estupidamente puxadas e super cansativas. A boa notícia é que a paisagem desta estrada é muito, muito bonita. Montanhas de ambos os lados, ao fundo, um degradê de cores de mais montanhas que se mesclam entre si; o céu com a luz já mais baixa, porém não menos azul e toda a imensidão daqueles vales…

Os quatro mosqueteiros sofrendo, terminando a subida.

Mas, ainda assim, era uma subida filha da puta. Desculpem o termo, mas era só o que eu conseguia pensar quando estava no auge do meu cansaço e resolvi perguntar ao Gola quanto já havíamos pedalado, esperando uma resposta do tipo: “ah, uns 10km… já estamos chegando”… ao que ele me responde, de fato: “quatro” e nada mais. Pensei: “AINDA FALTAM SETE KM DESSA SUBIDA FILHA DA DA PUTA!!!”… Sim. Ainda faltava sete km daquela subida filha da puta (dica pra vida: ciclocomputador é para os fortes. Não é fácil acompanhar metro a metro de quanto se tem ainda pra subir).

Os meninos estavam com um ritmo bom e eu sempre ficava pra trás, então o Shadow e o Gola, às vezes, diminuíam o ritmo e pedalavam atrás de mim ou muito perto. A estrada não era perigosa, mas o tráfego de carros, caminhões e ônibus era um pouco intenso. Essa estrada é uma alternativa para a Ruta 68 – que liga Santiago a Valparaíso pela autopista – e vai pela Cuesta La Dormida, que era a única ligação entre o porto e a capital do Chile pros espanhois (isso tudo quem nos contou foi o casal fofo do Hot Dog Kanguru, em Olmoé, mas eu ainda vou chegar nessa parte).

Enfim, é neste momento que, pra mim, acontece o grande dilema de uma cicloviagem: a hora de parar de pedalar pra descansar. Quando você sabe que a subida acaba logo ali, dá pra pensar: “só mais esta subida e quando terminar, paro pra descansar um pouquinho”. Só que TUDO era subida até o topo da montanha (que, neste momento, ainda estava bem longe). Então, comecei a cogitar a possibilidade de parar pra descansar um pouco, quando eu avisto lá longe o Ian e o Shadow, que já estavam bem mais na frente, parados pra nos esperar (ou seriam o Ian e o Gola? Bom, não me lembro)… Parei, desci da bike, xinguei aquele morro um pouco, em voz alta, comi umas castanhas, bebi um pouco de água e continuamos pedalando.

Mais à frente, a subida ficou mais íngreme e, neste momento, eu já não conseguia mais lembrar porque concordei em fazer  a viagem em bicicleta. O peso estava cada vez mais ficando mais evidente, meus quatro alforges parecendo dez, minhas pernas já olhando para mim com cara de “vamos morrer” e meu pulmão desistindo de trabalhar. Senti uma forte mistura de cansaço, fraqueza e irritação e também fiquei pensando que por causa do meu ritmo lento, atrasaria a viagem de todo mundo. Foi no meio de todos esses pensamentos ruins que resolvi pra novamente pra respirar e descansar um pouco as pernas, porque ainda faltava muito e não queríamos pedalar à noite, embora parecesse um pouco inevitável, porque o sol já estava baixando bem. Parei, comi e bebi água mais um pouco, falei pro Gola que estava bem difícil e não sabia se conseguiria ou não terminar aquela subida. Ele me falou que não importava, que se eu quisesse podíamos voltar, dormir em Til Til e sairmos no dia seguinte, descansados, pra enfrentar aquela subida novamente.

A ideia de dormir mais rápido, em um lugar “conhecido”era muito tentadora, mas só de pensar em voltar tudo aquilo, tive calafrios. Pensei: “ou eu termino essa merda agora, ou eu vou ter que fazer isso de novo amanhã”. “Vamos seguir!”, disse pro Gola, “só que não consigo mais pedalar. Vou ter que empurrar, desculpa. Pode ir pedalando e eu te encontro lá em cima”. Ele me disse que claro que não, que ia empurrando comigo.

pedalar é coisa do passado...

Então, lá estávamos o Gola e eu, às 18h30, quase 19h, com o sol se pondo atrás das montanhas, empurrando 50kg de bicicleta ladeira acima. Dizem que um bom relacionamento de casal tem que ter mil declarações, pedidos de casamento, jantares caros, flores… Duvido. Nada nunca vai superar o gesto de empurrar uma bicicleta com quatro alforges ladeira acima pra simplesmente fazer companhia…

Este momento me fez recuperar as energias e ter força pra continuar. Ficamos olhando o sol se pondo no meio das montanhas criando um degradê de cyan pra amarelo, enquanto subíamos rumo a nossa redenção: os tais 11km de descida, ou pelo menos era isso que eu pensava.

No último quilômetro, encontramos um senhor na estrada que nos disse que o fim da subida estava próximo e apontou pra um ponto entre montanhas e disse: “é ali!”. Não tenho como expressar o quanto fiquei feliz em poder ver o final daquela coisa, por mais que, empurrando a bicicleta, tudo parecesse mais longe. E era. Eram metros e metros que não acabavam mais até o tal “final da subida”. Aliás, esse era meu mantra: “só até o final da subida… só até o final da subida…”, uma coisa meio “Só Por Hoje”, sabem…

Quando finalmente chegamos ao topo da montanha (“el cumbre”, como dizem aqui), o Shadow e o Ian já nos esperavam lá com cara de bobos olhando alguma coisa que parecia ser muito incrível. Então, o Gola e eu nos apressamos para ver o que era e, de fato, se existe o Divino, era isto:

o divino se mostrando.

Aí está, pra mim, um dos grandes trunfos em viajar de bicicleta. Os carros, caminhões e ônibus que passavam por ali, seguiam reto, talvez com poucos segundos para observar aquilo tudo e isso, SE eles percebiam o que estava acontecendo ali. Se não, passavam reto. E nós, parados no acostamento, babando por aquela cena toda. De bicicleta conseguimos ficar muito perto de coisas como esta e assim, não nos tornamos meros observadores, mas sim, participantes daquilo tudo.

De alma lavada pela paisagem fantástica, começamos a nos organizar para a descida. Colocamos roupas de frio como corta-ventos, luvas, capuz, calças e meias para descermos vivos com aquele vento gelado cortante que fazia la em cima. Quando subimos na bicicleta para começar a descer, o Gola nos alertou que tinha um pneu furado. Mais uma parada pro pitstop (aliás, nada contra o Mão na Roda, mas acho que ninguém ali nunca havia trocado pneu num lugar TÃO lindo…)

Mão na Roda edição Cuesta La Dormida.

Todos prontos finalmente, organizamos um comboio bem pensado: o Gola foi na frente ditando o ritmo da descida (que deveria ser bem lento, devido ao piso escorregadio, neblina e peso das bicis), depois eu (no quesito café-com-leite), o Shadow e, por último, o Ian, que tinha a iluminação traseira mais forte.

Quando se pedala em estradas, à noite, deve-se ter um cuidado extremo, ainda mais se estiver em um lugar com neblina pesada como aquele. Se já é difícil dirigir na serra, imagina prestar atenção na estrada E nas bicicletas pelo caminho (ainda mais que em muitos trechos do acostamento, tínhamos que sair pra estrada, porque tinha muitas pedrinhas pequenas dessas que derrapam). Eu uso uma luz traseira de uma marca chamada Portland Design, semelhante à Planet Bike modelo turbo, é bem forte com um refletivo que brilha bastante, mas já estava ficando com a pilha fraca, então ela não segurou muito bem a iluminação. Dica pra vida: lembrar SEMPRE de carregar as pilhas antes de sair pra pedalar… :-/ Parece óbvio, mas de tão óbvio, a gente esquece. Usei também uma headlamp de luz frontal, muito boa, emprestada gentilmente pelos amigos Lex e Jô.

Durante a descida, lembrei bastante da minha procrastinação em conseguir manetes especiais pra freios auxiliares dos STIs (que são difíceis de conseguir em São Paulo). Estou usando só o STI e, pra quem não está acostumado, chega uma hora em que as mãos e os ante-braços começam a doer muito, dificultando a tensão que você tem que fazer pra acionar o freio. Nem preciso dizer que isso é BEM perigoso, né. Por isso, os freios auxiliares, nesse caso, são tão úteis. Pela posição mais “comum” deles, no guidão, dá pra variar a posição das mãos, de modo que a tensão não vai toda pra um lugar só.

Quando começamos a descer, o ritmo estava bom e, apesar dos medos da escuridão, logo estávamos fluindo perfeitamente os quatro. Depois de um tempão de descida nonstop e de curvas, às vezes, bem fechadas que fazíamos BEM devagar, o Shadow pediu pra parar, pra alongar os braços, por conta também da tensão dos STIs. Pensei: “NOSSA! Ainda bem”, porque já estava quase ficando com as mãos paralisadas. Esse é um problema que eu tenho que é uma mescla de orgulho com vontade de não desistir, então, é muito difícil eu pedir pra parar, se estou pedalando em grupo. Isso é um costume ruim, porque, primeiramente, se você escolheu fazer uma cicloviagem desse porte com alguém, essas pessoas são seus amigos e a solidariedade e apoio entre eles, é essencial pra uma hora de estresse mais forte. Então, nunca devemos nos sentir mal por fazer um grupo parar. Você tem que reconhecer seus limites e pensar nas consequências de ultrapassá-los.

Então paramos, alongamos um pouco puxando os dedos das mãos para trás, com o braço esticado e, depois seguimos viagem.

Ainda em Til Til, ligamos pro Parque Nacional La Campana (no número 3344 1342) e descobrimos que o camping era 24 horas, então não tínhamos limite de horário pra entrar ou sair, o que era uma dúvida nossa, porque o site do Parque diz que ele só funciona até às 17h.

Chegamos na cidadezinha de Olmoé por volta das 22h. A princípio, me senti muito insegura pedalando naquela cidade tão escura e deserta à noite, mas depois de ver uma mulher de uns 40 anos andando tranquilamente sozinha pela rua, com uma bolsa pendurada no ombro, percebi que estava apenas sofrendo da “nóia” paulistana de cidade grande. Na verdade, Olmoé é super bonitinha e segura.

Neste momento, já estávamos morrendo de fome, visto que nossa última refeição tinha sido o almocinho delícia em Til Til, às 13h. Depois disso, só castanhas, granola, chocolate e água.

Passando por dentro da cidade, seguindo o mapa do Gola e o GPS dos meninos, tentando encontrar o parque, passamos por um trailer de hotdogs ainda aberto!!! \o/ Como oásis no deserto, claro. Comemos muito, nem preciso dizer. O casal quarentão que cuidava do trailer, logo se interessou pela nossa viagem e começaram a fazer muitas perguntas, explicarem coisas sobre a cidade de Olmoé, sobre o Parque Nacional e, o mais importante, nos deram todas as direções pra chegarmos no camping! 😀 Ficamos muito felizes, agradecidos, pagamos a conta e continuamos a última parte da nossa jornada, prontos pra montarmos nossas barracas e abrirmos a garrafa de Carmen que os meninos haviam comprado no supermercado em Til Til pra comemorarmos o primeiro dia de pedal.

HotDogs Kanguro, em uma das pracinhas de Olmoé.

Porém (tudo na vida tem um porém), pra chegarmos de Olmoé até o Parque era só uma “subidinha de uns três quilômetros” como o casal fofo nos contou. Sim, era uma subida de 3km mais a subida até o camping por uma estrada de terra com pedras soltas. Coitada da speed com pneu 700×23 do Shadow… Todo mundo empurrando bike morro acima (de novo), à meia-noite, errando caminho, voltando, descendo, subindo de novo, olhando no mapa, espantando aranhas…

Uma hora e meia depois, finalmente, encontramos o tal camping!!! que, inclusive, era muito bom. Tinha banheiros, lugar pra tomar banho, os lugares numerados com plaquinhas, planos, pra montar barracas, mesinhas, banquinhos e até churrasqueiras por toda a parte. Pena que só previmos uma noite neste parque.

Finalmente conseguimos nos instalar e abrimos a garrafa de vinho, que bebemos inteira em meia hora e fomos dormir de tão cansados que estávamos da saga toda do primeiro dia. No dia seguinte, precisávamos chegar a Valparaíso e precisávamos descansar…

café-da-manhã no camping com pães, queijo e café.

nossa parte no camping.

uma das únicas fotos que conseguimos fazer de manhã, antes de partir pra Valparaíso, porque óbvio, devido a garrafa inteira de vinho que bebemos em meia hora, na noite anterior, acordamos tarde e perdemos a hora pra começar a pedalar...

E assim termina nosso primeiro dia de pedal, com uma leve ressaquinha, claro…

Chegada em Santiago pela Rodoviária

30/03/2012

Pronto, chegamos em Santiago por volta das 20h. Na verdade, entramos bem antes na cidade, mas é que o trânsito estava muito carregado (sim, síndrome de Paulistano: pra onde vai, leva o trânsito consigo) e ficamos uma hora e meia mais ou menos, na entrada na cidade, num tipo de Marginal Pinheiros, esperando pra chegar na Rodoviária.

Já a rodoviária era a coisa mais engraçada do mundo. Pelo que a Hermana Silvia me contou, Santiago tem umas três rodoviárias, duas delas muito boas e a nossa, a pior de todas. Ela disse que até tem vergonha dessa rodoviária e não entende como um ônibus vindo de outro país pode parar lá.

Imaginem um estacionamento. Isso era a rodoviária. Os ônibus paravam lado a lado, a 90 graus mesmo, com um espaço de 1,5m mais ou menos entre sim e abriam apenas um dos lados do bagageiro, porque não tinha como abrir do outro lado, por conta de ter outro ônibus la, já com o porta-malas aberto. Então, imaginem como foi pra pegarmos nossas bicis, jä que, pela Lei de Murphy, elas estava do lado da porta que não ia abrir.

Dai que o amigo que estava pegando as malas no bagageiro, após entregar a bagagem de todo mundo, olhou pras bicicletas com uma cara de puto, olhou pra gente e a gente “sim, são nossas, tem que tirar com cuidado, porque…” PAF!!!! Lá vai o câmbio do Gola pra cima da minha bicicleta. O cara não conseguiu tirar a primeira bicicleta, óbvio, porque elas estava amarradas entre elas com aranhas. A gente tentou muito explicar isso pra ele, mas é claro que, com o barulho imbecil de todos os ônibus a 1,5m de distância do outro, ainda ligados e a plataforma escura, porque já estava anoitecendo e não tinha iluminação, não deixaram o amigo prestar atenção sobre como deveria tirar as bicis dali.

Então, falei pro Gola: “sobre lá e ajuda ele que eu fico aqui pra pegar as bicicletas” e assim fizemos até conseguirmos tirar as duas bichinhas sãs e salvas daquele inferno.

[Pausa: no Chile tem uma coisa muito legal que se chama “proprina” que é a “caixinha” deles. Eu acho muito engraçado chamar propina. Enfim.]

Depois de conseguirmos tirar as bicicletas, o amigo do bagageiro olha pra gente e começa a gritar: “propina! propina! propina!” e a gente, recém-chegado em Santiago, sabendo falar pouquíssimo castellano, com aquele barulho infernal em volta,  não entendendo absolutamente nada, perguntamos: “QUE?!?!” e ele, pra deixar a cena mais freak ainda, estendeu a mão com um monte de notas amassadas e moedas e começou a chacoalhar tudo na nossa cara e gritar, masi ainda: “PROPINA! PROPINA!” e a gente: “….. o.O” Aí entendemos que ele queria caixinha, mas como tínhamos acabado de chegar em Santiago, não havíamos trocado dinheiro, ainda, então pedimos milhões de desculpas e saimos correndo dali.

Conclusão da história: se seu ônibus chegar na Rodoviária Los Héroes, se prepare pra passar por um momento mega estressante. Agora, se seu ônibus chegar na Rodoviária Alameda ou Santiago, você ta feito, segundo a Hermana Silvia.

Bom, fomos pedalando da rodoviária até a casa do Felipe, nosso ilustríssimo couchsurfer de Santiago, por esta rota: Rodoviária Los Héroes – Avenida Presidente Riesco. Agora, pasmem: fomos 90% do caminho por uma ciclovia muito boa e com uma infra bem legal, no meio dos dois lados da avenida, tipo na “ilha” que era um espaço de convivência muito incrível.

Conseguimos sair da rodoviária lá pelas 21h e demoramos bastante pra chegar na casa do couchsurfer, porque estávamos com todo o peso das bagagens, não sabendo nos locomover direito pela cidade e ainda um pouquinho perdidos (se não fosse o senso de direção do Gola, eu tava ferrada). Pedalamos por mais ou menos uma hora e meia neste trajeto, pela ciclovia no meio e, mesmo nesse horário da noite, com alguns pontos muito escuros, podíamos ver casais namorando, grupo de amigos conversando na grama, pessoas que saíram do trabalho e estão apenas sentadas lá olhando o movimento, pessoas andando de skate, um grupinho com um som fazendo street dance, velhinhos passeando, pessoas voltando do trabalho andando lentamente, passeando… Muito bonito! Fazia tempo que não via tanto a interação das pessoas assim com o espaço público.

Nós, paulistanos, temos uma mania de sentirmos medo em todos os lugares que estão escuros, porque enfim, nunca se sabe, né. E, a princípio, estávamos com esse receio de pedalar em um lugar completamente desconhecido, tarde da noite, em uns pontos um pouco escuros, cheios de bagagens penduradas na bicicleta. Mas, conforme os quilômetros foram passando, fomos entendendo um pouco mais do que acontecia ali. Chegamos em plena sexta-feira à noite e a cidade estava completamente tomada de pessoas vivendo a vida, saindo de casa, indo pras ruas, interagindo. Foi uma sensação muito gostosa… Uma mescla de cidadezinha do interior, só que numa praça que segue pela ilha da Avenida Bernardo O’Higgins que é tipo uma Berrini misturada com a Faria Lima! Muito legal… Tenho algumas fotos de como a coisa acontece, mas não consigo postá-las agora, preciso baixar e tratar ainda, mas dá pra ter uma ideia de uma das ciclovias aqui:

Ciclovia da Avenida Pio Nono, que tinha inclusive um recuo pra entrada de um estacionamento. Tudo fluindo muito bem.

Inclusive, Santiago tem uma infraestrutura muito incrível pra pedestres e bicicletas. Os motoristas são muito educados, você coloca o pé na rua e eles param. Alguns ônibus e alguns taxistas, claro, dão umas aceleradinhas, mas não sofremos nada de muito grave pedalando na cidade, até porque tinha bastante ciclovia pelo caminho. A maioria das calçadas tem guia rebaixada para subir e descer, o asfalto é bom… muito legal.

Então, depois de pedalar tudo, conseguimos chegar na casa do Felipe. Ele não estava, mas havia deixado a chave pra gente… Conversamos com o porteiro e ele nos deixou subir. Quando estamos passando por dentro do hall pra chegar no elevador, ouço: “Laura!”… olhei pro Gola, olhei pro lado… tipo: “oi?”… estranho. Dai o Gola grita: “SHADOW!!!!!” \o/ Eram o Shadow e o Ian que, por coincidência, tinham ido fazer alguma coisa com o Felipe (por isso ele não estava) e tinham voltado pra nos esperar!

Felizes que encontramos nossos amigos queridos e que tínhamos finalmente uma casinha pra poder fazer nossas coisas, depois de dois dias e meio num ônibus, entramos no apartamento, deixamos nossas coisas, e relaxamos, de alma lavada. Precisávamos descansar, porque afinal, no dia seguinte, era o primeiro dia de Lollapalooza…

Dica de café-da-manhã

30/03/2012

Esta é nossa 48a hora no ônibus. Pela Crucero Del Norte, em território Argentino, temos refeição de graça com bebidas inclusas. As refeições têm sido ok, nada de mais, mas também nada de menos. Geralmente vêm uns bolinhos, maionese, arroz com milho e ervilha (esse é muito gostoso) e algum tipo de carne (e nem rola o momento “chicken or meat”. É o que tem e pronto. No almoço foi chicken, na janta foi meat).

Ontem de manhã, paramos em um hotel da Crucero Del Norte e eles serviram o café-da-manhã lá. Era tipo um mini-croissant doce e cafe con leche.

Uma pausa na história: quem me conhece sabe que meu estômago tem uma necessidade gigante de comida salgada, a qualquer hora do dia. O Gola me chama de “gordinha”, minha mãe, de “saco sem fundo” e a Bel fica desesperada quando tomamos café-da-manhã juntas e eu peço um hamburger salada e um refrigerante, às 8h da manhã.

Enfim, voltando ao ônibus. Hoje o café-da-manhã foi no ônibus mesmo. Entregaram as bandejinhas como sempre fazem e depois as embalagens com comida. Eu estava esperando um café-da-manhã BEM gordo tipo ovos, carne, salsicha, no mínimo…  Eis que me aparece uma bandejinha com um alfajor (óbvio), dois tipos de torradinhas diferentes e… wait for it… uma embalagenzinha dessas de manteiga, só que com doce de leite!!! Doce de leite. DOCE. Só doce! 😦

Resumindo: meu café-da-manhã virou uma orgia de glicose, das mais promíscuas. Alfajor, um mini-pote de doce de leite e um saquinho de leite em pó pra jogar no café. Ah, detalhe, o café obviamente já vem adoçado com adoçante.

Agora, concluindo, estou num dos maiores picos de energia da minha vida, sentada pela 50a hora dentro de um ônibus, numa estrada que é uma linha reta desde ontem de manhã, sem poder sair correndo e gritando, corredor a dentro!

A conclusão do dia é que os argentinos são ótimos trolls de passageiros.

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Dica do viajante que precisa de salgados no café-da-manhã: se você vai comer café-da-manhã na Argentina, leve seu próprio potinho de manteiga.

Este é o café-da-manha dos campeões, cheio de glicose.

primeiro almoço: arroz com ervilha e milho, frango, dois bolinhos e doce de milho de sobremesa.

janta: bife a milanesa, arroz com milho e ervilha de novo, dois bolinhos, maionese, um paozinho e pêssego em calda para sobremesa.

segundo almoço: massa muito incrível com molho a bolonhesa, um pãozinho, uma empanada de carne e bolinho pra sobremesa.

Dica Importante da Hermana Silvia

29/03/2012

Tem três freiras aqui no ônibus e uma delas está sentada do nosso lado. É uma senhorinha bem pequena e delicada que embarcou em Curitiba. Ela fala espanhol e a ouvi dizer ao motorista que vai descer em Santiago.

Pois bem. Durante toda minha vida, viajei várias vezes de ônibus e sempre fico irritada e desgostosa com as janelas embaçadas por causa da neblina, calor, frio e as mais esquizofrênicas mudanças climáticas que acontecem durante uma viagem. Sempre tento limpar o vidro, secá-lo com um lenço, mas ele sempre está lá, embaçado, me impedindo de ver a paisagem.

Em um das paradas pro café-da-manhã, em Garupá, na Argentina, o ônibus parou pra fazer a revisão e troca de motoristas (temos seis motoristas ao todo, disse a galera da companhia). Desde que saímos de São Paulo, sentimos o tempo esfriar bastante até o Paraná e, em Garupá, já estava muito frio. Obviamente, quando voltamos pra dentro do ônibus, os vidros já estavam todos completamente embaçados com aquela mescla nojentinha de vapor e suor do quentinho de dentro.

Então, a senhorinha freira tira um lenço de papel do bolso e um tubo transparente com uma geleca cheirosa e consistente dentro. Coloca um pouquinho no lenço e começa a esfregar lentamente no vidro, do lado dela (detalhe: como estamos nas primeiras poltronas da panorâmica, temos muito vidro ao redor; na frente e dos lados).

A “limpeza” do vidro, estava se transformando em uma meleca só: a geleca cheirosa virou espuma em contato com o suor do vidro e agora tudo estava coberto por uma gosma branca. Pensei: “OI?!?!”. Cinco segundos depois que ela terminou a lambança, voilà! A espuma havia se dissolvido e o vidro estava mais claro do que quando entramos no ônibus!

Claro, a minha cara olhando praquilo tudo deveia estar ótima, porque a freira virou pra mim, estendeu o lenço e disse (em espanhol, claro, mas eu não me atrevo a escrever errado): “aqui, toma. É shampoo. Você passa shampoo para adultos no vidro, quando ele começa a ficar assim (embaçado) pra continuar vendo melhor a paisagem”, deu um sorriso e fez sinal pra eu passar no vidro do nosso lado.

Sorri, agradeci e lá fui eu fazer a espuma do nosso lado. Cinco segundos depois, nada de espuma e o vidro completamente translúcido! \o/ Lindo!

E foi assim que a senhorinha freira acabou com um dos meus maiores dramas de viajar de ônibus. 🙂

ps.: isso já fazem quase 12 horas e nosso vidro ainda está ótimo. O resto do ônibus segue embaçado.

Hermana Silvia, a freirinha simpática que me salvou.

ônibus de São Paulo a Santiago

28 de março de 2012

O Ian e o Shadow foram escolheram ir de avião pra Santiago. O Gola e eu decidimos nos aventurar e ir de ônibus. O Gola pesquisou algumas companhias e, segundo informações, a melhor era Crucero del Norte, que faz a viagem em dois dias e meio, com poltrona leito em 160 graus, cobertor e travesseiro, refeições inclusas em território argentino, café e água de graça durante o trajeto inteiro.

Pareceu bem bom negócio, mesmo porque o itinerário do ônibus vai pelo meio dos Andes e a paisagem é uma das mais bonitas que eu já vi. Escolhemos as poltronas 11 e 12, que são as duas primeiras do andar de cima, ou seja, com vista panorâmica do trajeto todo. Perguntamos pra mocinha que nos vendeu a passagem, no Terminal Rodoviário do Tietê se tínhamos que embalar as bicicletas para levá-las no ônibus e ela disse que não, que era só chegar e colocá-las no bagageiro.

Maravilha! Tudo certo, então.

Na quarta-feira, chegamos duas horas antes do ônibus no Terminal Tietê para embarcar.

chegando no Terminal Rodoviário do Tietê.

Meia hora antes do embarque, o ônibus chegou e o motorista (que era um argentino) viu as bikes, fez um gesto negativo com a mão e falou, grosso: “No! Precisam embalar-las! No é permitido embarcar asi!”, virou as costas e foi embora colocar outras bagagens no porta-malas. O Gola fez uma cara de puto e eu, com medo da viagem ter que ser postergada em uma semana, pedi pro Gola: “espera aí!”. Tentei conversar com o motorista arranhando todo meu espanhol e ele continuou negando. Então subi correndo até o guichê em que compramos as passagens para pedir pro funcionário descer comigo e tentar resolver a situação.

Cheguei na cabine das passagens e nada. A luz estava acesa, mas não havia ninguém, entrei em pânico! Faltavam 15 minutos pro ônibus sair, às 9h. Bati no vidro, chamei e nada. O Gola estava sem celular, portanto não conseguia me comunicar com ele la embaixo na plataforma. Então decidi voltar e ir até as últimas consequências pra fazer o motorista colocar as bicicletas no ônibus: chorar, conversar, apelar pra deus, tentar propina, ser fofa, ser chata, ameaçar de morte, etc. Pensei em tudo isso enquanto corria loucamente pelo Terminal Rodoviário do Tietê, pra chegar até a plataforma 31, onde nosso drama acontecia.

Pensei até em sugerir pro Gola pra gente pegar um avião, pra não perdermos o Lollapalooza, etc… Enfim, depois de muito correr, cheguei ofegante, tentando explicar pro Gola porque eu havia demorado tanto pra, no final das contas, não resolver a situação e ele me recebeu com um sorriso de orelha a orelha, fazendo um joinha com a mão. Olhei no bagageiro e o motorista super grosso estava ajudando o Gola a amarrar as bikes com as aranhas. Neste momento, um ponto de interrogação gigante e luminoso brotou flutuando acima da minha cabeça e o Gola me explicou o que tinha acontecido nesses 10 minutos que eu fiquei correndo e planejando os mais diversos homicídios no Terminal.

O que aconteceu foi que enquanto eu subi pra procurar o cara que tinha nos vendido as passagens no guichê, ele mesmo desceu até a plataforma, por isso o guichê estava vazio. Daí, ele viu as bicicletas e perguntou pro Gola: “São essas as bicicletas que vocês vão embarcar?!?!” e o Gola olhou com uma cara de “não, não, essas bicicletas são imaginárias” ou coisa parecida. Então, o motorista percebeu o que havia acontecido, mudou de humor rapidamente e falou pro Gola que tudo bem a gente embarcar as bicicletas daquele jeito, mas que isso era ilegal. Elas teriam que estar embaladas e que, quando voltarmos era bom encontrarmos caixas ou sacos para elas.

Enfim, cheguei de volta à plataforma, o Gola me contou a história toda, deixei a raiva toda de lado para dar lugar à alegria imensa de perceber que nossa aventura estava só começando…

Itinerários e companhias

Bom, pra quem ainda não sabe, estou viajando com o Gola (meu namorado), o Ian (um grande amigo) e o Shadow (também grande amigo, mas ele só fica até a parte de Valparaíso e depois volta pra São Paulo, pra trabalhar). Todos nos conhecemos da bicicletada de São Paulo e formamos vínculos de amizade muito interessantes.

Tudo começou quando o Gola e eu vimos o valor do ingresso pro Lollapalooza em São Paulo, que estava quase 500,00 pros dois dias. Pra começar, não vale a pena pagar esse preço por um festival de dois dias e depois descobrimos que a Bjork só estava no line-up do Chile e não na edição de São Paulo. Então pensamos em comprar pra edição em Santiago, no Chile. O Gola ainda estava trabalhando e pensou em tirar duas semanas de férias pra fazermos uma mini-cicloviagem de Santiago a Valparaíso e depois voltar a São Paulo. Como eu sou freelancer, podia tirar todo o tempo do mundo pra viajar, então concordei. Já estava na hora mesmo de fazer uma viagem…

Mas depois, o Gola saiu do emprego, falamos com o Shadow e com o Ian e decidimos todos irmos juntos ao Lollapalooza e fazermos uma cicloviagem maior. A princípio, pensamos em ir com o carro do Ian, mas depois claro, entramos na piração de fazer a viagem de bicicleta, obviamente, e aqui estamos.

Como eu pedalo fixa há uns dois anos e meio (e essa era minha única bicicleta…), o Gola me deu uma Specialized Vita (<3) muito boa pra viajar, do meu tamanho, e a equipamemos com guidão drop, STIs, bagageiros traseiro e frontal e finalmente, fiz um bike-fit, pra descobrir que estou a três anos pedalando com o selim três centímetros mais alto do que deveria. Enfim… pedalando, vivendo e aprendendo.

Bom, depois de muito planejar, o Gola fez os roteiros e cronogramas prevendo nosso mês inteiro de viagem pelo Chile e Argentina. Decidimos viajar não pagando hospedagem, obviamente, ficando em casa de hosts de couchsurfers (assim como hospedamos muita gente em São Paulo), fazendo camping selvagem ou, no máximo, pagando lugares pra acampar.

Aqui vão os mapas dos trajetos:

Santiago – Til Til – Vaparaíso

Valparaíso – Mendoza

Tucuman – Humahuaca

Bom, mais pra frente, quando rolar um tempinho, vou abrir uma aba aqui no blog, pra contar sobre equipamento levado, o que foi excesso, o que eu tô usando de verdade, itinerário do ônibus de São Paulo a Santiago, valores, etc.

Por enquanto é só. Vou correr aqui.

Beijos!!!

A Primeira Grande Viagem

Oi, gente!

Começo aqui este blog pra reunir meus relatos de viagem (agora entre Chile e Argentina de bicicleta e posteriormente pra outros lugares, espero). 🙂

Bom, esta é minha primeira grande cicloviagem. Já fiz algumas menores como SãoPaulo/Itu, São Paulo/Sorocaba, estrada da manutenção pra Santos e as Ilhas do Sul. Esta última foi a maior delas com um total de cinco dias de pedal, mas tudo basicamente pela praia, sem nenhum problema. Estávamos em dez amigos, todos em bicicleta e foi maravilhoso.

Enfim, nunca fiz uma viagem tão grande. Então, este é o intuito deste blog: contar pros novatos em viagens mais longas como tudo acontece, o que levar de fato (porque obviamente eu trouxe bilhões de coisas a mais que não precisava e isso significa peso a mais), quais são os medos, os problemas, as inseguranças, os momentos incríveis e os que dão vontade de largar a bicicleta, sentar e chorar, porque afinal, nem tudo são flores e isso também acontece.

Como estamos viajando passando por muitos lugares sem internet, levo um caderno onde vou anotando tudo que acontece quase diariamente e, quando der, passo pra cá. Espero conseguir manter isso aqui atualizado….

Bem, é isso. Espero que inspire. 😀

Besos desde Chile!